A HISTÓRIA DO RATINHO

A História do Ratinho desde o começo

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RATINHO COISA DE LOUCO

A figura : Carlos Roberto Massa "O Ratinho", nascido em 15 de fevereiro de 1956 no bairro do Sertãozinho, em Águas de Lindóia- São Paulo. Pobre, do interior e, atualmente um dos fenômenos da televisão brasileira, em termos de audiência - duas emissoras de TV - Record e SBT estão se enfrentando na Justiça por sua causa e sabe-se do temor da Rede Globo por sua estréia no SBT. O que está por trás desses sucesso? O que está havendo com o público brasileiro? Porque programas estilo Ratinho estão fazendo tanto sucesso atualmente, inclusive fazendo escola em termos de programas populares? As respostas não são tão óbvias quanto podemos imaginar. É preciso uma análise profunda da sociedade brasileira e sua conjuntura.É este o objetivo deste trabalho: elucidar essas questões bem como analisá-las, baseado na leitura de artigos de jornais, revistas e, na observação dos programas na Record e SBT. "Na estrada da minha vida carreguei sempre a certeza de que algum dia ia encontrar um lugar ao sol. Com muita vontade de vencer, com bastante persistência, fui abrindo meu caminho". Carlos Roberto Massa As origens do sucesso de seu estilo devem ser procuradas em sua formação. Ratinho veio do rádio, aprendeu a dominar ao longo de sua história uma linguagem própria de uma camada popular que ele mais do que ninguém conhece. Isso foi determinante para sua identificação direta com o seu público. Sérgio Miceli em "A Noite da Madrinha" fala-nos dos mecanismos de projeção e identificação entre o espectador e o animador. Analisando o caso de Hebe Camargo, o autor assinala que o que é fundamental na sua construção simbólica é o o fato de que ela passa a imagem de "uma igual "uma mulher como as outras que assistem ao seu programa. De forma análoga, Ratinho identifica-se com o seu público - diferente do de Hebe - fazendo questão de dizer que é brega, que é povão e isto o legitima a falar e agir em nome dele. Como exemplo disso em um programa levado ao ar recentemente, após sua estréia no SBT, Ratinho pediu ao encarregado do som uma música. O mesmo colocou uma canção de Roberto Carlos. O que surpreende é a reação de Ratinho - ele ficou furioso, esbravejando dizendo aos gritos: - Eu sou brega, gosto de música brega. Roberto Carlos para mim não é brega. Como uma das regras do programa é a obediência direta e a obrigação de suportar qualquer humilhação, os funcionários imeditamente trocaram a música para "Eu não sou cachorro não" de Waldick Soriano. Ratinho então estava exultante. O exemplo tomado por Miceli ainda é significativo. Ele permite perceber outros simbolos de que se vale Ratinho para construir seu próprio personagem. Enquanto observamos que em Hebe temos um público (auditório) ordeiro, passivo, representante de uma classe média, em Ratinho ocorre o contrário. Seu público grita, xinga e só se aquieta com a intervenção do animador, que com o seu cassetete batendo na mesa - simbolo do seu autoritarismo perante tudo e todos - revela que seu programa é baseado na "porrada" e só faz seu público silenciar na própria porrada. Outro elemento importante é o fato de o animador vangloriar-se de falar a verdade, doa a quem doer. Seu slogan é - Aqui tem café no bule! - marca registrada de seu discurso, que significa: "Não tenho medo de ninguém, o que tiver que falar, eu falo; doa a quem doer. Através destes artifícios, Ratinho identifica-se com o povo - ele encarna o seu defensor . É seu o direito de estar nesse lugar, pois foi pobre e hoje "através de muito trabalho", obteve as condições de falar em seu nome e ajudar aos necessitados. Como advogado dos marginalizados, justifica o seu sucesso no Ibope. A base do cardápio de seu programa é a comoção à tragédia de pessoas humildes e sofridas. Em seu programa, o animador faz um arremedo de filantropia conseguindo para seus participantes operações- desde tumores raros até de mudança de sexo - além de reconciliações amorosas, familiares, solucionar desavenças em cima de dívidas não pagas, entre outras ações que lhe garantem uma perversa audiëncia. Mas se formos observar com cuidado o modo como é construído o programa, constataremos que nem tudo é tão espontäneo e natural. Todos os dias em torno de 800 pessoas disputam 20 vagas de casos bizarros na atração do apresentador. "Procuramos casos inusitados, bizarros ou que provoquem briga. É o que dá mais Ibope". Através de um processo direto de construção de sua programação, Ratinho seleciona quem, o que, e como beneficiar. Nada é aleatório, não há chace de um cidadão comum, com médios problemas, obter solução junto ao programa de Ratinho. É preciso haver ultrapassado todos os limites. Um desses casos foi o da dona-de-casa Adileuza Ramos Ponte. Ela teve os olhos furados, foi violentada tendo sua vagina deformada devido ao estupro e, um de seus filhos morto queimado. Todas estas atrocidades foram proocadas pelo marido que ainda a manteve em cativeiro. O caso gerou semanas de grande audiência culminando com a participação do ministro da Justiça Iris Rezende. A moeda de troca é conhecida por ambos : Ratinho, sem cerimônia, ofereceu ao mesmo, em troca de seu esmero no caso, apoio político à sua campanha ao governo de Goiás. O perigo de atitudes como esta é o fato de passar a largas parcelas da população a imagem de que seus dramas só irão chamar a atenção das autoridades competentes se forem promovidas por um veiculo de comunicação, no caso, a televisão. O que é uma idéia incorreta, se formos observar que seu show é u produto comercial que usa a base da caridade eletrônica - em seu apelo ao clientelismo - para vender a si própria. Apontamos o fato revelador que essa caridade é feita de uma maneira seletiva, onde centenas de pessoas esperam uma chance de aparecerem em seu programa mas somente, os que dão mais Ibope são aceitos. A contradição fundamental do discurso do próprio Ratinho é justamente este: o de que em seus casos bem escolhidos,o protetor dos pobres e desvalidos só ajuda a quem lhe consegue mais audiência, o que é cruel do lado das pessoas que precisam de ajuda e que encaram o seu programa como se fosse a última saída. Essas figuras desconhecidas, marginalizadas e sem onde recorrer, são as verdadeiras vítimas de Ratinho, são os excluídos da ultima salvação. É sabido que esse tipo de programa vive da exploração da miséria, da aflição alheia, do gosto pelo bizarro. Faz apelo ao lado sádico do público e, por isto, dirige-se diretamente aquilo que há de pior nas pessoas: a falta de solidariedade, o regozijo com a infelicidade dos outros, o alívio de constatar que a observação é sobre a vida do vizinho, não sobre a minha vida. Essa modalidade apelativa existiu ao longo da história da televisão brasileira e é fácil recordar os clássicos do gênero como "O Homem do Sapato Branco" e o Povo na TV", que são as matrizes das atuais atrações. Da mesma maneira que não se consegue passar na rua por um acidente - sem dar uma espiadela - o telespectador não resiste em entrar em contato com o submundo do crime. Com uma vantagem de que pela televisão essa viagem ao mundo cão é segura e confortável. É digna de nota o fato de que a recente legitimação de Ratinho pela mídia burguesa tende a ofuscar a compreensão do que está se passando na televisão e além dela. Capa da "Veja", entrevista com Jô Soares e Boris Casoy, povoando com seu estilo consagrado também fora do seu habitat, já é possivel encontrar pelo mundo suas perversas consequëncias. Ratinho já virou cult entre adolescentes de classe média, que se reúnem em bandos para rir com as aniquidades que o apresentador leva ao ar, sempre alternando na mesma performance surtos de indignação espumantes com acessos de pura caçoada. E nos casos dos pobres miseráveis vítimas de assassinato pelos filhos da classe média alta (um indio em Brasília, uma garota de programa em Ribeirão Preto), Ratinho trata-se , obviamente, de um personagem que explicita um sintoma da época. Sinais de um processo de dessolidariedade social em curso no país, também visíveis nos pequenos detalhes, como por exemplo, na satisfação que os gestos de escracho de um novo rico que "enricou" à custa da miséria provoca na camada bem posta dessa sociedade". Um fator essencial a lógica do progama de Carlos Massa é mescla que realiza do estilo novelesco do radio com o da televisão. Com um programa vai ao ar de segunda a sábado, das 20:30 à 22:00 horas (horário nobre) geralmente reservado as novelas, como no caso da rede Globo, Ratinho soube muito bem apropriar-se do ritmo a que seus telespectadores se acostumaram nos ultimos 30 aos. Uma prova disto encontra-se no fato de que até algum tempo atrás, as novelas apresentavam as cenas do próximo capítulo. Agnaldo Caldas Farias em "A Hora do Amor: Uma Leitura das Telenovelas das 8 horas, fala-nos a respeito dessas cenas: "Além da incrível elaboração das cenas durante o transcorrer das novelas onde o telespectador é enredado pela trama e sistematicamente assume o papel de cúmplice, juiz, testemunha, etc , as "cenas do próximo capítulo" conferem a ele uma dimensão quase divina, na medida em que ele, refestelado no seu olimpo doméstico, é capaz de saber, e portanto prever , o que ocorrerá no futuro com aqueles mortais envoltos em suas tramas comezinhas". (a pg.203) Ratinho usa deste artifício para manter a sua audiência. Nunca os seus casos são resolvidos no mesmo programa. Ele vai contando o drama das pessoas aos pouquinhos, incitando a curiosidade do telespectador, que fatalmente assistirá o programa seguinte. Além disso, faz em cada programa um resumo do anterior deixando seu público informado e conseqüentemente curioso para ver o desfecho de cada caso. Esta técnica foi aperfeiçoada na mudança de emissora. O ex Ratinho Livre, atual Programa do Ratinho está mais equipado, com personagens novos. O programa de auditório tomou mais corpo, noa moldes de Sílvio Santos, com inclusive jingle para a sua entrada, que é cantado com o auditório de pé e batendo palmas. As poltronas, que são uma mistura de Márcia com Jô Soares, no centro do palco, este decorado com fatias de queijo por todos os lados, inclusive o seu telão , e a entrada para o palco são duas "tocas". Carlos Massa também tem uma atração, ou um parceiro de trabalho, que é um boneco de rato, que fala, dá palpites e é claro, apanha com o famoso cassetete. O caráter essencialmente comercial - ao contrario da imagem assistencialista se destaca na forma como os comerciais são apresentados. Os os intervalos não são mais suficientes para a venda de produtos, é preciso a imagem do apresentador ligada aos mesmos. Da mesma forma como vemos nas novelas as mocinhas indo ao "O Boticário" comprar um perfume para o namorado, o merchandising alcança os programas de auditório a fim de não deixar escapar nenhuma fatia de público, nem mesmo aquele que espera o intervalo para ir ao "banheiro ou tirar a comida do fogo". "se a necessidade de diversão foi em larga medida produzida pela indústria, que às massas recomendava a obra por seu tema, a oleogravura pela iguaria representada é inversamente, o pudim em pó pela imagem do pudim, foi sempre possível notar na diversão a tentativa de impingir mercadorias, a Sales talk, o pregão do charlatão da feira. ( a pg.135) Mas como Carlos Massa tornou-se um fenômeno? Em sua entrevista coletiva realizada no SBT em 28.08.98, sua assessoria produziu-a como se fosse um espetáculo. Ratinho chegou quarenta minutos atrasado e sua entrevista transmitida ao vivo, teve em média sete pontos no Ibope. O mesmo, nesta entrevista explica o seu sucesso dizendo que com a televisão fechada a saída para as aberta é o programa popular, e quem não entrar nesse esquema vai perder feio e, diz que sua meta não é a competência mas sim a concorrência. "O povão quer ver a verdade, quer ser representado na televisão." O problema é que para faze-lo, Ratinho vangloria-se por não possuir grandes estudos - estudou até o segundo ano do segundo grau - e diz que a grande escola é a da vida. Ao criticar a escola brasileira dizendo que a mesma tem que ensinar as pessoas a sobreviverem, seu discurso aproxima-se do popular por que faz uma severa crítica aos intelectuais, como no verbete "Onestidade", crônica de seu livro: "Peguei você, hein! Seu crítico tonto! Seu coração deve Ter batido vitorioso por alguns segundos. Pensa que só você sabe português. Honestidade se escreve com "H", isso mesmo, e com H maiúsculo. Como dizia meu pai, o que não é nosso Deus tira, mais cedo ou mais tarde. Vai correndo agora contar pra sua turminha que meu livro é uma merda. E quanto pior você falar dele, mais gente vai querer ler, seu besta! Ratinho é um tipo imigrante porque seu sucesso depende da distância que ele mantém dos códigos de conduta burguesa. Mesmo rico, precisa preservar cacoetes de feirante; mesmo rico, precisa continuar agindo como açougueiro; mesmo rico, deve satisfações à sua origem. E mesmo rico, precisa abandonar qualquer pretensão ao estudo. E o problema está justamente aí: nessa imagem passada ao seu público, a do abandono de qualquer projeto de ascenção social através da escolarização, que passa a mensagem subliminar perversa para milhões de brasileiros que o assistem diariamente: a de que devem abandonar aquela frágil, porém uma das poucas ainda disponíveis formas de progresso em uma sociedade sabidamente excludente. A escolarização no Brasil em todos os seus níveis possui todos os defeitos que a ela se possa atribuir, exceto o de ser um instrumento mínimo de reflexão e progresso social. Ao transformar seu exemplo em uma referëncia para a sociedade - o de progresso sem ensino - Ratinho presta um desserviço a sociedade brasileira, ao colocar como referëncia popular uma exceção só comparável e só possível num país onde os meios de comunicação detem um poder econömico e ideológico como no Brasil e que é responsável por todos aqueles que ascenderam por sua causa - regra de ouro da ascensão social, que faz feliz a Ratinho, e que apropria-se do nosso desencanto com a crise do sistema educacional brasileiro. Para milhares de brasileiros excluídos dos sistema formal de ensino, Ratinho encarna a possibilidade de sucesso sem educação. Sugestão perigosa, quando significa para a população o abandono do lugar de cidadão, daquele que exige do Estado o acesso as condições mínimas de saúde e educação. O perigo de sua mensagem é que sugere aos marginalizados que deixem de lutar pelo ensino. Nisso Ratinho está enganado.

ENTENDA AS EXPRESSÕES DO RATINHO

Aqui Tem Café No Bule! - Não tenho medo de ninguém. O que tiver que falar, eu falo: doa a quem doer.
Bater Palmas Pra Louco Dançar - Fazer papel de bobo.
Boiola - Cidadão que gosta de agasalhar o croquete. Vulgo veado. Nada contra.
Cascalho, Cascalhinho- Dinheiro, trocado.
Coi Di Loco! - Coisa de louco!, que significa coisa diferente, coisa bonita.
Jacaré - Cara lerdo, negão, cidadão, enfim, é utilizado quando me dirijo a alguém sem dizer o nome da pessoa.
Picareta - Sujeito que faz muitos negócios, rolos. Não tem nada a ver com desonestidade.
Pó Rodá! - Pode rodar!, é uma expressão que pede para a emissora colocar no ar a próxima matéria gravada.
Tchaca Tchaca Na Butchaca - É o que você está pensando mesmo, jacaré: é dar uma bimbadinha, afogar o ganso, molhar o biscoito, descabelar o palhaço, enfim, transar. Para os intelectuais, cópula carnal.